quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A Filosofia Através dos Textos - Heráclito (Aprox. 540 - 476 A.C.)

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Heráclito (Aprox. 540 - 476 A.C.)



Vida e Obra

Desconhecem-me realmente as datas certas do nascimento e da morte de Heráclito. Viveu entre Xenófanes e Parmênides, opondo-se ao pensamento do Primeiro e sendo contrariado no seu pensamento pelo segundo.
Pertencia à aristocracia de Éfeso, cidade da Jônia, colônia grega da Ásia Menor (hoje Turquia). Por convicção, ou por partidarismo ou posição social, combateu a democracia.
Temperamento, ao que parece, solitário, austero e desdenhoso, era tido como pessoa orgulhosa.
Seu estilo como escritor mereceu-lhe o apelido de "o Obscuro", Sua obra Da Natureza, onde expôs seu sistema filosófico, é de leitura difícil, tornada mais inteligível pelos modernos editores dos numerosos fragmentos que dela se conservaram.


Pensamento

Pergunta-se qual é o princípio último das coisas e responde que: o fogo. O fogo que é a matéria viva, instável, em constante devir. Ao mesmo fogo ele chama de razão (logos) e de fado.
Apresenta-nos uma doutrina do eterno retorno. A luta causa as coisas todas. Tudo evolui até um conflito geral e então tudo começa de novo.
Através de Crátilo, mestre de Platão, exercerá Heráclito certa influência sobre este.
Seu ponto de partida encontrá-lo-emos nos milésimos (Tales, Anaximandro e Anaxímenes) que apresentou o problema do movimento e tentam as primeiras soluções.


Textos

1 - Este Logos, os homens, antes ou depois de o haverem ouvido, jamais o compreendem. Ainda que tudo aconteça conforme este Logos, parecem não ter experiência experimentando em tais palavras e obras, como eu as exponho, distinguindo e explicando a natureza de cada coisa. os outros homens ignoram o que fazem em estado de vigília, assim como esquecem o que fazem durante o sono. 
2 - Por isso, o comum deve ser seguido. mas, a despeito de o Logos ser comum a todos, o vulgo vive como se cada um tivesse um entendimento particular. 
6 - (O Sol é) novo todos os dias. 
8 - Tudo se faz por contraste; da luta dos contrários nasce a mais bela harmonia. 
10 - Correlações: completo e incompleto, concorde e discorde, harmonia e desarmonia, em todas as coisas, um, e de um, todas as coisas. 
12 - Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas. Mas também almas são exaladas do úmido. 
21 - Morto é tudo o que nós vemos acordados; sonho, tudo o que vemos dormindo. 
27 - O que guarda os homens após a morte, não é nem o que esperam nem o  que imaginam. 
30 - Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida. 
31 - As transformações do fogo: primeiro o mar; e a metade do mar é terra, a outra metade um vento quente. A terra diluí-se em mar, e esta recebe a sua medida segundo a mesma lei tal como era antes de se tornar terra. 
32 - O Uno, o único sábio, recusa e aceita ser chamado pelo nome de Zeus. 
36 - Para as almas, morrer é transformar-se em água; para a água, morrer é transformar-se em terra. Da terra, contudo, forma-se a água, e da água a alma. 
40 - A polimatia não instrui a inteligência. Não fosse assim, teria instruído Hesíodo e Pitágoras, Xenófanes e Hecateu. 
43 - Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrará os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.  
49a - Descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos. 
52 - O tempo é uma criança que brinca, movendo as pedras do jogo para lá e para cá; governo de criança. 
54 - A harmonia invisível é mais forte que a visível. 
56 - Os homens se enganam no conhecimento das coisas visíveis, como Homero, o mais sábio dos helenos. Pois também àquele enganavam os jovens, quando catavam piolhos e diziam: tudo o que vimos e pegamos, nós abandonamos; tudo o que não vimos nem pegamos, levamos conosco. 
57 - A maioria tem por mestre Hesíodo. Estão convictos ser o que mais sabe - ele, que nem sabia distinguir o dia da noite. Pois é uma mesma coisa. 
64 - O relâmpago governa o universo. 
65 - (Fogo:) carência e abundância. 
67 - Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Mas toma formas variadas, assim como o fogo, quando misturado com essências, toma o nome segundo o perfume de cada uma delas.  
76 - O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra da água. 
81 - Pitágoras ancestral dos charlatães. 
82 - O mais belo símio é feio comparado com o homem.  
83 - O mais sábio dos homens, comparado a Deus, perecer-se-á a um símio, em sabedoria, beleza e todo o resto. 
84a - Movendo-se, descansa (o fogo etéreo do corpo humano). 
88 - Em nós, manifesta-se sempre uma e a mesma coisa: vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a mudança de um dá o outro e reciprocamente. 
90 - O fogo se transforma em todas as coisas e todas as coisas se transformam em fogo, assim como se trocam as mercadorias por ouro e ouro por mercadorias. 
91 - Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira.  
121 - Os efésios deveriam todos enforcar-se, e suas crianças deveriam abandonar a cidade, pois expulsaram a Hermodoro, o mais valoroso dentre eles, dizendo: "Ninguém dentre nós deve ser o mais valoroso; senão (que viva) em outro lugar e com outros."



A Filosofia Através dos Textos - Parmênides - (Aprox. 470 A.C.)


         

A Filosofia Através dos Textos - Marco Aurélio - (121 - 180)

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Marco Aurélio - (121 - 180)


Vida e Obras

Aos 26 de abril de 121, nasceu Anio Vero em Roma. tendo sido adotado por Antonino Pio, de acordo com Adriano (era parente de ambos), passou a chamar-se Marco Aurélio Antonino Vero. Foi educado em Roma e favorecido dos Imperadores reinantes. 
Dos 17 aos 40 anos de idade (138 - 161) viveu no palácio imperial como pressuposto herdeiro. Dedicou-se ao estudo da Retórica e tomou grande afeição pela filosofia estóica, cujo estudo nunca mais abandonou. Casou com Faustina, filha de Antonino Pio, o qual, no momento da morte, designou-o seu sucessor (161). 
Logo depois, nomeou Lúcio Vero como "augusto" associando-o ap governo, até a morte de Lúcio ocorrida em 169. Desde então, até 177, governou só. Em 177, com 59 anos de idade, associou ao governo sei filho Cômodo. 
Durante seu reinado, inundações, incêndios e terremotos afligiram o Império. Teve de enfrentar também invasões de bárbaros. 
O que se sabe a respeito do seu caráter qualifica-o de humanitário e generoso.
Suas obras não foram destinadas ao público; são intimas. A correspondência com seu mestre Frontão, escrita em latim, foi descoberta por A. Mai e publicada em Roma no ano de 1823.  
Nas "Máximas a Si Mesmo", conhecidas como Pensamentos, empregou o grego. São fragmentos de uma espécie de diário espiritual, composto nos últimos anos de sua vida, durante a campanha contra os Marcomanos.  
Morreu aos 17 de março de 180, com 68 anos de idade.  

Pensamento  
Estoico por educação, fez do estoicismo como que sua religião. Foi grande admirador de Epiteto. Nas interessam a Marco Aurélio, como também aos outros estoicos romanos, as questões lógicas e metafísicas da stoa grega. Não toca nestes problemas.
São os temas relacionados com a moral, a conduta humana, os que ele aborda com exclusividade.
Sêneca procurou orientar as consciências dos outros e orientar os atributos. Epiteto trabalha para conseguir adeptos do estoicismo  integral. Marco Aurélio exorta-se a si próprio; não quer fazer homens bons, mas ser homem bom.
Filósofo e imperador, defronta problemas éticos de que muitos não têm qualquer vivência. A Filosofia torna-se para ele remanso e luz; é mãe e mestra; descanso e orientação.
É humanista e tolerante. Aceita, como bom estoico, o que de bom e de mau a vida lhe oferece, propondo-se a superar as oscilações do quotidiano e a viver cada instante como se fosse o último.


Textos


Da Reflexão e da Tolerância
Para descansar, procuram-se agradáveis recantos no campo, à beira-mar, nas montanhas. Também tu tens constantemente este desejo no fundo do coração. Mas isto é um devaneio dos mais comuns: experimenta a te recolheres a toda hora dentro de ti mesmo. Em nenhuma parte poderás encontrar um retiro mais doce, mais tranquilo do que na intimidade da tua alma, mormente se possuíres em ti mesmo aqueles dons preciosos que não se podem considerar sem usufruir imediatamente uma perfeita serenidade, e por serenidade entendo a tranquilidade de uma alma onde tudo está em ordem e no seu lugar. desfruta, pois, constantemente dessa solidão e nela encontrarás novas forças. Também nela encontrarás máximas de conduta breves e fundamentais, que te ajudem a dissipar tuas inquietações e te predisponham a suportar, sem revolta, tudo aquilo que te acontecer.
Por que te revoltas, de fato? Pela maldade dos homens? Pois bem, inicialmente lembra-se de que todos os seres racionais foram feitos para se suportarem uns aos outros, que esta paciência faz parte da justiça, que eles não fazem o mal porque queiram fazer o mal; lembra-te, também, de quantos homens que tiveram inimizades, desconfianças, ódios, brigas, e hoje estão mortos, reduzidos a cinzas, e deixa de te atormentares.
Pode acontecer que tu estejas descontente com a parcela que te coube na distribuição dos destinos; pois bem, sonha ainda uma vez que, na alternativa do mundo ser obra de uma Providência, ou uma reunião casual de átomos, prova-se claramente que é uma verdadeira moradia.
És importunado por sensações do corpo? sonha que nosso entendimento não se subjuga às impressões doces ou rudes que a alma sensitiva experimenta, uma vez que ele se fecha em si mesmo e lá reconhece suas próprias forças. De resto, lembra-te ainda de tudo o que te foi ensinado sobre o prazer e a dor, doutrina que mereceu o teu consentimento.


Das Ações Supérfluas

"Se queres viver tranquilo - foi dito - despreza os acontecimentos". Não seria melhor dizer, faz aquilo que é necessário, aquilo que a razão de um ser naturalmente social exige, e da maneira que o exige? Eis o meio mais seguro para desfrutar a tranquilidade, não só a que se procura no cumprimento das boas obras, mas também aquela que se encontra aos desprezar os acontecimentos. Com efeito, a maior parte das nossas palavras e das nossas ações não são necessárias. Suprimindo-as teremos mais tempo para o descanso e manos confusão. É necessário repetir-se a toda hora: "Não é isto algo desnecessário?" E devem ser impedidas as ações, e até os pensamentos, desnecessários; pois desta forma eles não serão ocasião de ações supérfluas.



A Morte é um dos Acontecimentos da Vida
Quando cumpres teu dever, não perguntes se tens frio ou calor, se tens necessidade de dormir ou não, se és repreendido ou aplaudido, se vais morrer ou correr algum perigo. O fato de morrer é um dos acontecimentos da vida, e na morte, como em tudo mais, o essencial é fazer bem aquilo que se faz no momento presente.

A Filosofia é Uma Mãe 
Se tu tens uma madrasta e com ela tua mãe, poderás testemunhar à primeira o teu respeito, irás porém constantemente ao encontro de tua mãe. Isto exemplifica o que é para ti a corte e a filosofia: procura amiúde esta última e descansa nos seus braços, que ela far-te-á suportável a corte, e te faz suportável à corte.

Amor aos Homens 
Dobra-te aos acontecimentos que a sorte te destinar e, sejam quais forem os homens com quem é chamado a viver ama-os de verdade.

Da Beleza do Mundo 
Todas as coisas, entrelaçadas umas às outras, formam uma corrente divina; não há qualquer coisa que seja independente de uma outra. todas são subordinadas e seu encadeamento constitui a beleza do mesmo mundo. Pois existe um único mundo que abraça tudo, um único Deus que está em toda parte, uma única matéria elementar, uma única lei que é a rezão comum de todos os seres inteligentes e uma única verdade, da mesma forma que há um único estado de perfeição para as criaturas do mesmo gênero e para os seres que participam da mesma razão.

Da Sociedade Humana
A relação de união que existe entre os membros de um mesmo e único corpo, existe também entre os seres racionais, por mais distantes que estejam uns dos outros, pois eles foram organizados para cooperarem na mesma obra. Compenetra-te do alcance deste pensamento, repetindo-te constantemente: "sou um membro do corpo formado pelos seres racionais". Se porém disseres, simplesmente, que fazes parte da sociedade humana, isto significa que não amas ainda, do fundo do coração, todos os homens; e que experimentas ainda uma verdadeira alegria ao fazer-lhes bem; e que fazes isto ainda por pura benevolência; e que não consideras ainda cada um deles como se fosses tu mesmo."   


A Filosofia Através dos Textos - Heráclito (Aprox. 540 - 476 A.C.)


    
    



sábado, 27 de agosto de 2016

Portões da Prática Budista - Chagdud Tulku Rinpoche

Chagdud Tulku Rinpoche

Pondo a Roda em Movimento 

Por que é que precisamos de um caminho espiritual? 
Vivemos em um tempo muito ocupado, em que nossas vidas transbordam de atividades - algumas alegres, algumas dolorosas, algumas gratificantes, outras não. 
Por que deveríamos reservar tempo para fazermos práticas espirituais? 
Conta-se muito a história de um homem de uma região no norte do Tibete que decidiu fazer uma peregrinação com seus amigos até o Palácio Potala, a residência do Dalai Lama em Lhasa, um lugar muito sagrado. 
Era uma viagem que marcava uma pessoa por uma vida inteira. Naqueles dias não havia carros ou veículos de qualquer espécie na região, e as pessoas se locomoviam a pé ou a cavalo. demorava-se bastante para chegar a qualquer parte, e era perigoso ir muito longe, já que inúmeros ladrões e bandidos assaltavam viajantes incautos. 
Por esses motivos, a maioria das pessoas nunca deixava sua região natal, do nascimento à morte. A maioria delas nunca havia visto uma casa; moravam em tendas pretas tecidas com fibra de pêlo de iaque. 
Quando esse grupo de peregrinos finalmente chegou em Lhasa, o homem do norte ficou assombrado com o Palácio Potala e seus múltiplos andares, suas muitas janelas e a vista espetacular da cidade que se descortinava do interior. 
Ele enfiou a cabeça por uma abertura bem estreita que servia de janela para ter uma visão melhor, girando a cabeça para a direita e para a esquerda, enquanto olhava a vista lá em baixo. Quando seus amigos o chamaram para ir embora, ele puxou a cabeça para trás, com um solavanco forte, mas não conseguia tirá-la da janela. Ficou muito nervoso, puxando de um lado e de outro. 
Por fim, concluiu que estava realmente entalado. Então, disse a seus amigos, "Podem ir para casa sem mim. Digam à minha família que a notícia ruim é que morri, mas a notícia boa é que morri no Palácio Potala. Haveria lugar melhor para alguém morrer?" 
Os amigos eram também gente muito simples, de modo que, sem muito refletir, concordaram e foram embora. Algum tempo depois, o zelador do templo apareceu e perguntou, 
"Mendigo, o que você está fazendo aí?"
"Estou morrendo", ele respondeu.
"Por que você acha que está morrendo? "
"Porque minha cabeça está entalada."
"E como é que você a pôs aí?"
"Eu enfiei fazendo assim." 
O zelador respondeu, "Então, tire-a da mesma maneira que entrou!"
O homem fez o que o zelador sugeriu, e se soltou. 
Como esse homem, se conseguirmos enxergar onde é que estamos presos, poderemos quebrar nossas amarras e ajudar os outros a fazer o mesmo. Mas, primeiro, precisamos entender como viemos parar onde estamos. 
Durante toda a vida, embora cada um de nós busque e, às vezes, encontre felicidade, ela sempre é temporária; não conseguimos fazer com que dure. É como se estivéssemos continuamente atirando flechas, mas no alvo errado. para encontrarmos felicidade duradoura, precisamos mudar o nosso alvo, concentrando-nos em erradicar o sofrimento nosso e o dos outros, não temporária mas permanentemente. 
A mente é a fonte tanto do nosso sofrimento quanto da nossa felicidade. Pode ser usada de modo positivo para criar benefícios ou de modo negativo para criar malefícios. Embora a natureza fundamental de todos os seres seja uma pureza imortal, que existiu desde sempre, sem começo - o que chamamos natureza búdica - , nós não reconhecemos essa natureza. 
Em vez disso, somos controlados pelos caprichos da mente ordinária, que vai para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, produzindo pensamentos bons e ruins, agradáveis e dolorosos. Nesse meio tempo, plantamos uma semente a cada pensamento, palavra e ação. 
Com a mesma certeza que a semente de uma planta venenosa produz frutos venenosos, ou uma planta medicinal cura, as ações maléficas produzem sofrimento e as ações benéficas, felicidade. 
Nossas ações viram causas, e dessas causas naturalmente vêm resultados. Tudo que é colocado em movimento produz um movimento correspondente. 
Se você joga uma pedra numa lagoa, formam-se ondulações ou anéis que correm para fora, batem na margem e voltam. O mesmo se passa com o movimento dos pensamentos: ondulações correm para fora, ondulações retornam. 
Quando os resultados desses pensamentos chegam de volta, sentimo-nos vítimas indefesas: estávamos inocentemente vivendo nossa vida - por todas essas coisas estão acontecendo conosco? O que acontece é que os anéis estão voltando para o centro. Isso é carma. 
A mente ordinária é cheia de oscilações e turbulência. Se não há uma força que a controle e controle seus efeitos sobre o corpo e a fala, somos jogados para cima e para baixo, para frente e para trás: nossa realidade fica igual a um passeio de montanha russa. 
Na verdade, é mais parecida ao girar de uma roda. Pomos uma roda em movimento e, a cada vez que reagimos, damos um novo impulso nela, ficando presos em seu movimento perpétuo. Dessa forma, nossa experiência da realidade continua a girar em ciclos, com todas as suas variações, vida após vida. 
Assim é interminável o samsara, a existência cíclica. Não compreendemos que estamos vivenciando resultados que nós mesmos criamos, e que nossas reações produzem ainda mais causas, mais resultados - incessantemente. 
Pelo fato de termos sido nós mesmos que armamos a enrascada em que nos encontramos, cabe a nós mudá-la. Uma pessoa que esteja com o cabelo embaraçado e oleoso, e olhe num espelho, não irá conseguir limpar sua imagem esfregando o espelho. 
Uma pessoa que tenha uma disfunção biliar terá uma percepção distorcida de cor; verá uma superfície branca - quer seja uma montanha nevada à distância ou um pedaço de pano branco - como sendo amarelada. 
O único modo de corrigir a visão defeituosa é curar a doença. Tentar alterar o ambiente externo não terá resultado algum. 
Algumas pessoas pensam que o remédio para o sofrimento está nas mãos de Deus ou Buda, em algum lugar externo a elas. mas as coisas não são assim. O próprio Buda disse a seus discípulos, "Eu lhes mostrei o caminho que leva à liberdade. Seguir por esse caminho é algo que depende de vocês". 
A mente, quando usada de modo positivo - para gerar compaixão, por exemplo - , é capaz de criar grandes benefícios. Pode parecer que esses benefícios vêm de deus ou Buda, mas são simplesmente o resultado das sementes que plantamos. 
Embora com os ensinamentos do Buda recebamos a chave do conhecimento que nos permite transformar, pacificar e treinar a nossa mente, somente nós podemos descerrar sua verdade mais profunda, expondo nossa natureza búdica e suas capacidades ilimitadas. 
Nossas experiências atuais na vida são de relativa boa sorte. Muitos são os que experimentam sofrimento muito pior que o nosso. Assolados pelas dores implacáveis da guerra, doença e fome, não têm meios para mudar sua situação; parece não haver saída. 
Aos contemplarmos as dificuldades em que essas pessoas se encontram, compaixão brota em nosso coração. 
Ganhamos inspiração para não desperdiçarmos nossas circunstâncias bem afortunadas, mas sim, usá-las para criar benefícios para nós mesmos e para os outros, benefícios que estejam além da felicidade provisória que vem e vai, além dos ciclos infindáveis dos sofrimento samsárico. 
Somente ao revelar por inteiro a verdadeira natureza da mente - ao alcançar a iluminação - podemos encontrar felicidade duradoura e ajudar os outros a fazer o mesmo. Essa é a meta do caminho espiritual.